Amores Abortados

Amores interrompidos, natimortos
Amores não nascidos…
Sabe-se lá quão grande seriam,
Se lhes fosse permitido viver
Amores abortados, e mortos
Assassinados na gestação
Bebês ainda, mera paixão
Partituras pela metade
De músicas meio escritas
Por músicos amadores
Que delas desistiram,
Nas primeiras dores
Épicos livros que poderiam ser
Desfeitos, sem saber porquê
Por escritores iniciantes
O terror de incautos amantes
Amores que poderiam
Mas não foram, já se foram
Já partiram, se partiram
Partiram quem ficou pra trás
Já se foi, não volta mais
É a violência da paixão
Eficientemente eliminando
O que resta de emoção
É a paixão tornada amor suicida
Que se auto-extermina
Violenta demais para si
Se acaba no ali
Amor que não conjuga futuro
Mas somente pretérito
Paixão sem nenhum mérito
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T ou P ou A?

Tome muito cuidado
E olhe bem para o lado,
Não vire na contramão!
E jamais confunda tesão com paixão
São coisas distintas, e bem diferentes
E que no entanto confundem muita gente
Mas não desanime, que vou lhe explicar
Tesão é calor, mas é fogo de palha
Paixão é incêndio que logo não falha
Tesão é cola, que logo desgruda
Paixão é solda, que ao tempo perdura
Distinguir esses dois é fácil missão
Mas o que se dirá, de amor e paixão?
Paixão é incêndio, que se acaba na brasa
E o amor é o calor, emanando das brasas
Paixão é solda, que sempre se racham
Amor é o dia, em que as partes se acham
Paixão é o caminho, pelo qual passar
Amor é o destino, no qual se quer chegar
Então agora você sabe como separar
O tesão da paixão, e a paixão do amor
Mas se ainda há dúvida no seu coração
Então aqui vai, preste bem atenção
Se queimar muito forte, então é tesão
Se continuar queimando, então é paixão
Mas se se apagar e continuar a queimar
Então dúvida não há, que estás a amar

O dia em que fui todas as coisas

Sonhei que era um beija-flor
Beijando a flor de suas pernas
Bebendo do teu néctar
Era aranha tecendo
Mais bela seda
Dos teus belos cachos
E virei abelha a sugar
O mel de teus lábios
Sentindo tua doçura
Sonhei que era o sol
De tão quente que me deixou
Era uma flor, desabrochando
Sentindo todo teu calor
E então eu era a planta
Iluminada por tua luz
Fotossintetizando amor
Sonhei que era o próprio rio
Meandra por entre corredeiras
Eu virei todas as cachoeiras
E nelas me banhei,
Do suor do seu corpo belo
Virei então cão farejador
Olfato aguçado sentindo
De longe teu perfume
Era águia voando
Nas curvas e nos cumes
Do teu corpo, passeando
Era o pássaro, cantando
Encantado, pelo teu sorriso
Me tornei todas as coisas,
Nesse paraíso,
Que é você.

O Eu, O Outro, o Eu.

Eu olhei pra dentro, e não sei ao certo o que vi. De repente, me deparei em uma sala de espelhos, mas cada espelho refletia algo que não era exatamente eu. Então, olhei para mim mesmo, e não vi nada. Não me reconheci, pois eu, não sabia quem era eu.

O Eu que olhava não era nada, pois não sabia que Eu que era. Olhava no espelho, e via um Eu que ele poderia ser, mas não é, ou que já foi um dia, mas não é mais. Um Eu que jamais poderia ser, e um Eu, que jamais foi, mas já quis um dia ser.

Espelhos novos, velhos, quebrados… Alguns que não refletiam nem mesmo o Eu, mas alguém, um Outro Alguém. Uma outra parte do Eu?

Quem é, esse Outro, e o que ele está fazendo aqui?  Não um Outro, mas vários Outros, muitos, quase infinitos Outros, que guardam partes do Eu, mas não sou Eu.

Aos poucos mais espelhos se tornam Outros, e menos se tornam o Eu.  Aqueles que são o Eu, ficam mais parecidos com os outros Eu, mas, eu olho pra baixo, e o Eu que olha, ainda é nada, ainda é nada, não é nada.

Os Outros somem, e se tornam nada, e todos os espelhos, se tornam Eu, mas quando olho pra mim, ainda enxergo nada.

Só resta um espelho, agora. Nesse espelho, não vejo nada. Nesse espelho, eu vejo a mim mesmo, como eu sou, como sempre fui. Olho para mim mesmo, e agora vejo o Eu. Olho denovo, e não vejo reflexão.

O Eu não mais observa, o Eu não mais é a reflexão, o Eu é, e não existem mais espelhos.

Sei agora quem sou Eu. Sou o Eu que não sabe, o que simplesmente é. Não sou o Eu que observa, mas o Eu que vê. Não mais o Eu refletido, mas, o Eu em si. Não mais o Outro, que não tem lugar no Eu, mas somente o Eu.

Velho País Novo País Velho

O lustro atraente de uma sociedade decadente que reluz, esconde e por trás sente que mente, um falso retrato de um passado que nunca existiu, porque de longe ela pra si já mentiu, de uma glória que jamais existiu, de que sente saudades, de um jovial passado juvenil, viril mas que já passou e deu origem e sentido a uma sociedade senil, de vilania e tiranias mil – BRASIL- essa nação afogada em corrupção, grande país do futebol e do bundão, do caixa dois e político de carrão, pra enxergar algum futuro tem que ter muita visão, estilo Thundercats, olho de Thundera, só mesmo além do alcance, esse país já era, saqueado desde o início, por seus próprios habitantes, que nunca o consideraram algo importante, e que agora quando a barra pesa tiram passaporte da estante, é, real, a gente tá fodido, país todo entregue aos bandido, mas, sem apoio e levante popular, solução não há, vamo mobilizar pra ver a mudança chegar, já  tá difícil de enxergar o futuro do Brasil, e a vontade que vem é de mandar tudo pra puta que pariu

De rios, desertos e mares…

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Imagine um rio, mas não qualquer rio… Um rio sem fim, com margens de penhascos escarpados impossíveis de serem escalados, verdadeiros monolitos de brancas pedras lisas a se erguerem em direção às estrelas, suas faces imaculadas parecem eternas e intocadas pela passagem do tempo.

Nesse rio, você se encontra em um barco, e em sua mão possui um pequeno remo. O barco é simples, leve demais e propenso a balançar frequentemente. É difícil de se segurar nele, mas na maior parte do tempo, ele é confortável. Ele é o seu barco, e não existe nenhum outro igual a ele. No céu, em perpétua escuridão claramente consegue-se ver todos os astros, tantos que são, preenchem o céu como se coberto de diamantes, pequenos, grandes, ardentes e fugazes…

Nesse rio, seu pequeno barco é carregado pela correnteza. Impossível reverter a direção, por mais calmas as águas – neste rio, só se anda para a frente. Seu remo, pequeno demais para qualquer mudança drástica de direção, e somente muito esforço constante pode mudar levemente o rumo desse peculiar veículo.

Você entrou nesse barco, mas não se lembra quando. Sabe quando foi, mas dessa época pouco se lembra. A correnteza o carregou, por muitos e muitos anos, antes de sequer considerar pegar o remo e usá-lo. E, em eterna briga com a correnteza, você está seguindo o caminho desse rio… Uma neblina estranha e mística preenche sua visão a todo momento,  e te deixa ver somente um pouco à frente, e aos poucos, engole o caminho deixado pra trás. Às vezes de correnteza forte, às vezes com pesada neblina onde nada se enxerga, você segue.

Nesse rio cósmico de tamanho imensurável existem infinitas bifurcações, pequenas entradas, indo para alguma direção desconhecida, levando a outras bifurcações. De correntezas fortes, em que por mais que reme não consegue deixar de seguir o rio, a águas calmas na qual facilmente e com pouco esforço se direciona o barco para a direção em que se quer. E a única dica, a única bússola e mapa que existe desse rio, está escrita em uma linguagem da qual o homem entende de muito pouco a nada… Na linguagem espiritual, cósmica e tão antiga quanto o tempo, das incontáveis estrelas no céu. Elas são suas únicas guias, pequenos pontos de luz, sempre visíveis na perpétua escuridão,  e visíveis mesmo com a neblina mais pesada…

E esse barco, essas estrelas e seu pequeno remo, nesse rio que é o tempo,  dão à ti o seu destino. Uma viagem solitária, na qual mesmo os barcos mais próximos estão distantes demais, em que em cada barco só cabe uma pessoa, e dificilmente se consegue trilhar o mesmo caminho de outro… Por mais que se tente, cada um desses barcos é uma ilha, e apenas os desesperados gritos de uma consciência racional, que chamamos de voz, consegue traduzir, mal e porcamente, de grosso modo, o que de fato sentimos, pensamos, vivenciamos – gritos à distância para os outros navegantes, companheiros da viagem solitária da consciência.

Mais sozinhos, ainda, pois nesse rio, trilhamos sozinhos também como espécie… É a curiosa e fascinante sina da humanidade a de ser a única que desenvolveu o que chamamos de racionalidade. Homo Sapiens Sapiens… Sapiência, que remonta à consciência – autoconsciência – reconhecer o eu no eu, o outro no outro, e filtrar os milhões de impulsos carregados por incontáveis sensores, mais precisos, complexos e eficientes do que qualquer máquina,  bombardeiam informação em quantidade realmente assustadora em seu cérebro.

E a racionalidade de forma inevitável leva ao questionamento. Do por quê? O como. O onde. O até quando. Mas o caos é imenso demais, o rio vasto demais, as estrelas em quantidade superior à sua capacidade… O remo lhe ensina, que não dá para controlar tudo,  as estrelas, que não dá pra saber tudo, a neblina, para lembrar da nossa cegueira, que parecemos esquecer, tão pretensamente inteligente que somos.

Enquanto o rio lhe carrega, e tu ficas a deriva ou luta contra ele, as lições que vê no meio do caminho lhe mudam, lhe alteram, aumentam, inevitavelmente, sua experiência e sua visão do mundo, mas não fazem promessas.

Há,  nesse rio, muitas lágrimas… Há também os barcos sem condutores, já há muito abandonados. Ossos são visíveis ao fundo  do Rio, bilhões daqueles que se perderam pelo meio do caminho, que desesperadamente tentaram nadar quando seu barco os jogou para fora, e desesperadamente tentaram agarrar em qualquer esperança de chegar ao destino que sequer conhecem…

Esse rio de lágrimas, sangue e ossos representa todo teu passado, todo teu futuro, e todas tuas oportunidades. Cada bifurcação é uma escolha, que levam a mais e mais escolhas… Eventualmente, você acaba no mar, destino fatal e inevitável de todos os navegantes, e a única concreta certeza da vida.

Esse mar, eternamente calmo e imaculado, carente de qualquer onda ou mínima vibração da água mais parece um espelho, perfeito espelho a refletir a luz e todas as estrelas, que iluminam suas brancas praias, que se expandem e expandem, até muito além de onde a vista chega…

Uma imensa praia, um deserto de ossos, já há muito pulverizados finamente pela inexorável passagem dos ventos que vem do mar no fim do tempo, esse mar que não tem fim, nem começo, que não muda, é eterno e sempre constante.

Nosso destino na vida, é, inevitavelmente, morrer. Nossas escolhas consistem em como administramos essa jornada, quais estrelas escolhemos para nos guiar, quão fortemente iremos pegar no remo e tentar buscar o caminho que queremos, mesmo sem certeza de saber, ou se deixaremos a correnteza nos levar, e o destino decidir por nós.

Com toda nossa racionalidade e consciência ainda temos muito pouco poder para influenciar o que acontece externamente, nossos braços fracos e nossos remos curtos demais, nossos olhos incapazes de enxergar por detrás da pesada neblina da incerteza do futuro, nossos corpos incapazes de suportar as gélidas águas do rio de lágrimas…

Nosso barco é nosso corpo. O rio é o tempo. As paredes inescapáveis separam a existência mortal da divina – sempre presente e sempre tentadora, porém impossível de se alcançar, e as estrelas representam sonhos, esperanças, vivências, pedacinhos de esperança dentro da desoladora, porém bela, passagem que é esse surreal cenário.

No barco, nossa consciência. Nossa racionalidade. Aquilo que nos diferencia e que nos faz humanos, a nossa sina e a nossa sorte – nossa incrível genialidade nos permite questionar, mas nos faz também capazes de compreender o quanto ainda não sabemos, e o quanto não podemos, nem jamais poderemos, controlar.

Para o bem, para o mal, qual é mesmo, nossa esfera de influência, se não a nossa própria consciência? Há de se reconhecer a limitação de nossa influência no outro, no mundo – não se pode jamais prever tudo, nem controlar tudo.

O presente é a nossa esfera de influência, mas, só porque nossas escolhas irão definir o que irá acontecer no futuro, não significa que você é capaz de evitar que as coisas dêem errado, ou garantir que deem certo.

O que nos apresenta a nós é, tão somente, a ilusão da escolha… O sentimento, esperança que é a estrela que nos guia para este ou para aquele caminho. Tomamos decisões e fazemos escolhas baseado naquilo que vivenciamos antes, tentando, desesperadamente, evitar nos tornar um daqueles que, no fundo do rio, jazem eternos.

Solitários que somos, nessa viagem, devemos nos esforçar para ser nossa melhor companhia, e entender, profundamente, o que nos faz nós mesmos. Como se interpreta tudo, como se enxerga, internamente, tudo aquilo que acontece à sua volta, isso, sim, está em nosso controle… Não podemos ser senhores do destino, mas, podemos ser senhores de nós mesmos.

Aprender a reagir, mais do que prever, aprender a viver no presente, em vez de perder-se no passado, engolido pela neblina do esquecimento, e no futuro, na eterna neblina da incerteza.

Há muito mais que não podemos influenciar do que podemos.  Não é nem no perfeito controle, ou na falta dele, que encontramos a verdadeira liberdade. A verdadeira liberdade existe no reconhecimento da ilusão de escolha, e da identificação de nossa esfera de influência. É no reconhecimento da finitude e da limitação do Eu, na aceitação de suas limitações.

Mas, é aí que entra a dualidade – a outra faceta da racionalidade, nossa companheira eterna e inseparável, a loucura. Que são sonhos, senão uma loucura noturna, quando a consciência deixa a cena e dá lugar aos nossos mais estranhos pensamentos?

A loucura, quando bem utilizada, temperada pela racionalidade e o reconhecimento de suas limitações, é a mais poderosa ferramenta, e é indissociável da racionalidade. Todos somos loucos num e noutro grau e a loucura é o que nos faz, de fato, humanos.

Que seria da arte sem a loucura? Teríamos quadros tão belos como os de Picasso se tudo que todos enxergassem fosse sempre só a realidade posta, e nunca algo mais? E quantas fantasias febris não viraram romances e épicos com os quais gerações aprenderam a sonhar? E o que dizer da música… A tradução do sentimento em ondas sonoras, imaginar, dentro da própria cabeça,  uma cacofonia caótica de sinfonias e tons, harmonias e desarmonias e desemaranhar esse nó para produzir algo que só pode ser descrito como belo.

A ordem é bela! Ela nos dá rumo, nos dá visão, nos permite navegar no rio, seguindo os melhores caminhos… Mas o caos é criação, a loucura, o imprevisível e o insano, esse é o que nos dá nossas maiores obras…

Se o homem jamais quisesse virar um pássaro, teria pensado em inventar o avião? Se o homem não se perdesse em pensamentos olhando as estrelas, será que hoje teríamos astronomia?

Caos e Ordem dançam em meio as estrelas que nos guiam, nos levam a caminhos diferentes, porém convergentes, são duas faces da mesma moeda – felizes são aqueles que aceitam sua loucura, que buscam a ordem mas a temperam com o caos… Que não se privam, não se impedem por razões arbitrárias de experimentar novas sensações, que não tem medo de experimentar, medo de se aventurar, medo de viver a vida plena – uma vida da qual possa se orgulhar.

Existe a loucura quixotesca, destemperada e desmedida, febril e que em nada acrescenta… E existe a loucura força motriz, a loucura do sonhador, do poeta, do artista, do cientista e de todos aqueles inconformados com a realidade que se apresenta, todos aqueles que querem algo a mais, que exigem mais do pôr do sol e que não se contentam com apenas as sensações que conhecem!

Passamos tempo demais pensando em quem queremos ser, tanto, que nos esquecemos de ser, viver. Hoje, já não penso que nunca descobriremos a verdadeira felicidade. Penso que nunca houve uma verdadeira felicidade. Pois todas as felicidades são apenas momentos passageiros.

A vida se compõe de mais momentos tristes do que de momentos felizes, mas esses momentos seriam tão preciosos, se fossem mais abundantes? A tristeza existe para nos mostrar quando devemos ser felizes. Ou seja, quando não estamos tristes. A verdadeira felicidade é uma armadilha, uma fantasia. É correr atrás do horizonte – sempre que chegar lá, um outro horizonte se porá à sua frente. Você correrá, e correrá, e correrá, mas nunca chegará a um lugar onde não existe mais um horizonte.

Mas, por mais loucura que seja, correr atrás desse horizonte, significa que estará sempre em movimento, andando sempre em frente… Não sendo desmedida, sendo temperada, essa loucura é uma loucura boa, uma loucura virtuosa.

É o ímpeto constante do ser humano a sensação de não pertencer a sua própria época, de romantizar o passado e o futuro e esquecer-se sempre do momento presente, que é como a esposa presa entre a amante e o objeto do desejo, sempre presente, mas nunca valorizada.

O aqui e o agora é a sua esfera de influência. É o que pode ser mudado, é o que pode ser atacado, de forma imediata. O futuro nada mais é do que o presente de daqui a pouco, e o passado, esse, sim, completamente imutável. Mas, a boa notícia, é que o nosso cérebro sempre funciona no presente – voltando ao nosso rio, é cada pequena e insignificante remada a levar-lhe por este ou por aquele caminho no rio das lágrimas, guiar-se por esta, ou por aquela estrela.

Não podemos mudar o que de fato aconteceu, mas podemos mudar a nossa percepção dele. Ao modificar a nossa atitude no presente, de maneira prática, mas não na realidade, modificamos o passado. E estamos alterando nossos possíveis futuros. Criando momentos presentes que virão, e serão novas oportunidades para agir, para ser.

Remorso é o pior sentimento que existe. É a impotência face ao passado. É dizer “agora, já era.”. E como já vimos, isso nunca é exatamente verdade. Porque o nosso consciente é sempre afetável no aqui e no agora.

Às vezes na nossa busca pela individualidade nos esquecemos da beleza do comum, do ordinário, da simplicidade. A beleza de simplesmente desaparecer na multidão, e viver a vida. Para quê querer ser, se você já é? Como disse Descartes, Cogito ergo sum! Se você pensa, logo existe.

Somos, sim, produto de todas as nossas experiências… Impossível vivenciar algo sem ser afetado por ele! Somos, de fato, mosaicos das nossas experiências passadas, pequenos pedaços que pegamos de nossos pais, de nossos amigos, de nossos amores e de nossos desafetos… Dos nossos acidentes, das sortes e azares na vida, no jogo, e no amor.

Cada um desses pequenos fragmentos forma o complexo e intricado mosaico que é cada indivíduo… Feio e caótico, desordenado, mas belo em sua própria maneira…

Se conseguíssemos nos olhar assim, como realmente somos, de onde cada pedaço veio, numa espécie de Espelho da Alma, o que veríamos? Um mosaico com vários pedaços faltando? Um complexo, cheio de pedaços diferentes, de pessoas e lugares diferentes?

Somos fraturados, sim. Incompletos e buscando eternamente aquilo que nos falta… Ser consciente é, também, buscar saber quem é o eu. Deixamos pedaços nossos por aí, damos eles e muitas vezes não nos lembramos de colocar algo de volta.

Mas nós temos um Espelho da Alma… E ele se chama, reflexão. É olhar para dentro de si, e perguntar, conversar consigo mesmo…

É a hora que Caos e Ordem dançam valsa juntos… Ordem guiando o Caos, e o Caos ditando o ritmo da música… Ordem tendo que se esforçar para acompanhar o ritmo caótico do Caos, e Caos se esforçando para tornar as coisas mais interessantes – e difíceis – para a Ordem.

E nessa bela dança, reorganizamos esse nosso mosaico, em algo mais belo, algo mais aprazível – algo para nos orgulharmos. É reconhecer a importância de cada experiência, e coloca-la em seu devido lugar, com sua devida importância…

Como já disse Aristóteles, a virtude está no caminho do meio. Não podemos viver a nossa vida na inconseqüência total e completa do fatalismo, acreditando que nada podemos fazer para mudar nosso destino, nem tampouco devemos nos entregar à arrogância de pensar que todas as nossas escolhas importam, e que somos perfeitos senhores de nossos destinos.

Se você tem alguém que lhe ama, lhe acalenta e lhe compreende, e que te escuta quando você está pra baixo… Que te diz sussurrando no seu ouvido que jamais vai te deixar… Que compreende seus defeitos e valoriza suas qualidades acima deles, que não tem medo de te dar uma bronca quando você merece, mas que apesar de xingar e gritar e até de te odiar por um tempo, sabe, com toda a certeza, que você é alguém que merece uma segunda chance… Conte-se entre os sortudos.

 

Pois nem todo mundo tem alguém assim, por mais que queira, por mais que deseje, por mais que intensamente sinta – não tem.

 

Porque o mundo é cruel, e você erra, e seus erros não são compreendidos. Suas qualidades não são valorizadas. Você não tem segundas chances. Você não pode mudar o passado, não pode mudar o presente, não pode mudar o futuro. Você não tem chance de fazer absolutamente nada, porque você simplesmente não merece… Você simplesmente não é o bastante – não é o suficiente, não é e nem nunca vai ser, e talvez nunca foi.

 

Você errou, e agora é forçado a sofrer e conviver com os erros que cometeu, com toda a angústia e o sofrimento que é amar assim, sem ser compreendido, sem ser amado de volta, sem ter a chance de consertar quaisquer erros do passado que tenha feito divergir o caminho dos amantes…

 

E é uma dor além da dor, um sofrimento além do sofrimento, é pior do que qualquer morte, dez vez pior, com certeza, e muito mais lenta e muito mais sofrida…